Caminhos para a felicidade

Caminhos para a felicidade

Passeando pelos universos da neurociência, da filosofia e da psicologia encontraremos várias definições e significados para a palavra felicidade. Uma das que eu mais gosto é da professora da Universidade da Califórnia, Sonja Lyumbomirsky. Ela diz que “a felicidade é a experiência de alegria, contentamento ou bem-estar positivo, combinada com a sensação de que a vida é boa, significativa e vale a pena.”

Minha predileção por esta definição vem justamente do “olhar” para a felicidade pela perspectiva do próprio indivíduo que a sente, afinal, o que eu sinto como um estado de bem-estar e de felicidade, pode ser completamente diferente do que você sente. A subjetividade deve ser sempre considerada quando o tema é bem-estar e felicidade.

No entanto, não há como discordar que a permanente busca pela felicidade é comum a todos nós seres humanos em todo o período da nossa existência. E como disse Aristóteles, em sua obra Ética a Nicômaco: “Qual é o mais alto de todos os bens que se podem alcançar pela ação… Dizem ser esse fim a felicidade e identificam o bem viver e o bem agir com o ser feliz.”

Já que este é o fim e o bem maior que todos nós buscamos incessantemente, então por que não sabermos um pouco mais o que já foi pensado e dito no passado sobre a tão desejada Felicidade?

Quando pensamos em felicidade, de imediato, vem a nossa cabeça onde passaremos as nossas próximas férias, qual a diversão para o fim de semana, uma viagem romântica…

Felicidade - consumo, sucesso, momentos felizes e experiências

Aqui nas américas, felicidade, geralmente, está associada ao consumo, ao sucesso, a momentos felizes e a experiências. Este conceito de felicidade se difere completamente do conceito das sociedades orientais, por exemplo, que vinculam a sensação de ser feliz à serenidade e à paz interior.

No entanto, para os europeus, alcançar a felicidade significa encontrar o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional e também ter acesso a arte e a cultura com frequência.

A partir destes contrastes, fica evidente que devemos tratar o tema felicidade utilizando múltiplas lentes e perspectivas, tentando nos aproximarmos cada vez mais da subjetividade humana. Estudar e considerar as definições de bem-estar e felicidade que já foram pensadas e desenvolvidas no passado pela filosofia e religiões, também nos ajuda a entender melhor onde estamos errando e acertando, como sociedade e indivíduos, nesta busca que é tão vital para todos nós.

Os filósofos pensaram e sentiram a felicidade de formas diferentes

Os filósofos pré-socráticos já falavam em felicidade e conectavam o bem viver com um corpo forte e saudável. Nascia, nesta época, o ideal de beleza grego e uma ideia de felicidade associada à saúde física e à beleza.

Sócrates e Platão - Filósofos pensaram e sentiram felicidade de formas diferentes

Já o grego Sócarates, defendia a primazia da razão para o alcance da felicidade. Para ele, uma vida que não fosse pensada não poderia ser vivida de forma plena. O bem viver não poderia existir sem exercício frequente das faculdades da mente.

Platão, sustentava que cada indivíduo deveria desenvolver seus próprios valores morais, sua ética, bondade, senso de justiça. Para ele, somente esta descoberta interna, seria capaz de elevar a alma de cada um de nós e, assim, proporcionar um “bem viver”.

Em contrapartida, uma outra corrente filosófica nascia na Grécia Antiga (Hedonismo), também exaltando a felicidade como bem maior, porém sugerindo um novo caminho para seu alcance.

O hedonismo defendia a busca por prazer como finalidade da vida humana. Buscar o prazer seria necessário para mover as paixões, os desejos e todo o mecanismo da vida, sendo, portanto, na visão dos hedonistas, a primeira e mais completa ponte para a finalidade última da vida: a felicidade.

Epicuro de Samos, da doutrina filosófica helenista, foi um dos principais pensadores da corrente hedonista, porém, o filósofo articulou uma ética um pouco diferente, que apontava uma doutrina de vida centrada num hedonismo seletivo: a vida deveria pautar-se pela busca de prazeres naturais. Para os Epicuristas a felicidade também era vista pela ausência da dor.

Em Roma, aproximadamente, cem anos antes de Cristo, ganhou popularidade uma outra corrente filosófica, que muito agregou ao tema felicidade e bem-estar, o Estoicismo.

Os estoicistas defendiam a tese de que o bem-estar individual só poderia ser alcançado, através do controle dos prazeres e das paixões internas. O comportamento humano deveria ser baseado na aceitação completa, sobriedade diante da vida, ética rigorosa e na primazia da razão. Para eles, somente pela razão seríamos capazes de controlar nossos desejos e instintos, que são os verdadeiros frutos da infelicidade, ou seja, emoções e desejos sob o nosso controle, nos levam ao estado de felicidade serena, que é o verdadeiro estado a ser desejado.

Aristóteles - Felicidade Eudaimônica

Mas foi Aristóteles, ao evidenciar a importância das virtudes humanas e o conceito de Felicidade Eudaimônica, quem rompeu, na época, com a corrente filosófica hedonista. Para o filósofo, a vida virtuosa é aquela que exercemos na prática, através das nossas ações. É a harmonia entre o que eu penso, o que eu sinto e como eu expresso tudo isso através dos meus atos. Encontrando esta harmonia, encontra-se, também, coerência existencial e, por consequência, a felicidade.

A eudaimonia aristotélica está baseada na excelência da ação humana. Uma ação virtuosa é a que se esquiva dos vícios, por falta de algo ou excesso de algo, e promove a ação prudente, capaz de levar à felicidade.

A felicidade vista pelas religiões

As religiões também sempre estiveram perto do tema felicidade. As monoteístas, por exemplo, preconizam que devemos encarar esta vida como uma passagem para uma vida melhor, a vida eterna, que é onde de fato encontraremos a verdadeira felicidade.

Já nas religiões politeístas, onde há a crença da reencarnação, também se defende que estamos aqui em um processo evolutivo e que se não estamos bem agora, isso não é um problema, porque estamos nos preparando para uma outra vida que será melhor.

A ideia de “destino divino” só veio a ser contestada a partir da Revolução Francesa e do Iluminismo, quando surge o antropocentrismo – o homem como centro do universo, como senhor do seu destino, capaz de construir a sua própria história.

Portas para a felicidade

Como acabamos de ver vários caminhos foram pensados e traçados desde a antiguidade com o intuito de conduzir a humanidade à uma vida boa e feliz. Seguramente, eles não são excludentes uns dos outros, e sim, portas de entrada para que cada um de nós, de acordo com a própria subjetividade, possa, com consciência, autoconhecimento; fazendo uso das próprias virtudes, valores morais e éticos, construir o próprio caminho em direção a felicidade.

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