A ansiedade também causou D.R. entre Darwin e Freud

A ansiedade também causou D.R. entre Darwin e Freud

Já parou para se perguntar por que somos tão ansiosos?

Não fique ansioso se sempre se faz esta mesma pergunta, a ansiedade existe desde que o mundo é mundo e fomos programados para senti-la já no início da vida.

Esta característica foi selecionada em nosso processo evolutivo para que sobrevivêssemos, no entanto, o que foi funcional no passado hoje pode ser disfuncional muitas vezes. Viver de forma demasiadamente antecipada e preocupado com ameaças futuras, pode gerar muita angústia e mal-estar.

Se a ansiedade vem desde o início do nosso processo evolutivo, as discussões sobre ela também não são novas.

Charles Darwin, Sigmund Freud e a ansiedade

Charles Darwin, biólogo e autoridade máxima nos estudos da evolução nas ciências biológicas e Sigmund Freud, neurologista e pai da psicanálise, sob suas óticas, trouxeram contribuições essenciais para os estudos dos transtornos mentais, fundamentalmente, os transtornos de ansiedade, com os quais, atualmente, temos que lidar cada vez mais de perto.

Para Darwin, o valor adaptativo dessa emoção encontra-se no fato de a ansiedade ter uma função biológica a cumprir.

Para Freud, a ansiedade é adaptativa não apenas por preparar o animal para lidar com o perigo por meio da mobilização de energia psíquica, mas também por auxiliar na detecção antecipada de novas ocorrências do estado de perigo, ou seja, no aumento do poder preditivo.

Começando por Freud, pelo lado da psicanálise, a ansiedade se instalou em nossos ancestrais a partir do neuroticismo. Vivíamos em um ambiente de grande abundância, uma espécie de paraíso original, tendo livre acesso à comida e à cópula. Entretanto, em função de mudanças climáticas ambientais drásticas, a humanidade foi forçada a alterar radicalmente seu comportamento.

Com a longa duração dos tempos glaciais, o homem, ameaçado em sua sobrevivência, foi obrigado a renunciar ao prazer de procriar. Não havia comida para todos e, por esta razão, foi necessário limitar a procriação.

A partir disso, a população, para melhor se organizar, passou a se dividir em hordas, cada uma delas dominada por “um homem sábio, forte e brutal, como pai”. Com o surgimento da segunda geração, composta pelos filhos do chefe da horda, Freud, parte da hipótese de que esse pai brutal nada permitia aos filhos, expulsava-os da horda quando estes chegavam à puberdade ou, pior, despojava-os de sua virilidade por meio da castração com o objetivo de extinguir a libido.

Ainda segundo esta hipótese, poderia acontecer que os filhos ameaçados pela castração conseguissem fugir, organizando-se, a partir daí, em bandos de filhos fugitivos, nos quais a organização social podia ser edificada com base nas satisfações homossexuais.

Daí em diante, Freud constrói sua teoria sobre neurose e melancolia, que se baseia na tentativa da sociedade em repelir a homossexualidade, ao mesmo tempo, que tem de expulsar da sociedade o acometido de homossexualidade.

“Ansiedade neurótica ou patológica” e “Ansiedade realística”

Em consequência da neurose e da melancolia, nasce então, o que Sigmund Freud chamou de “ansiedade neurótica”, que está relacionada aos impactos psíquicos que a escassez, a não procriação, os filhos fugitivos dos homens sábios e fortes, a criação da homossexualidade e também da neurose em não ceder a excitação homossexual, causaram no homem em seu processo evolutivo.

O ego produz o que é chamada de “ansiedade como sinal”, uma reação à ameaça de ocorrência de uma situação traumática que já tenha acontecido anteriormente.

No entanto, falando ainda sobre aspectos da filogenia (história evolutiva de uma espécie), o médico defende que a ansiedade não é exclusividade dos neuróticos. Ele faz distinção entre a “ansiedade neurótica”, explicada acima, que pode ser considerada patológica, e a “ansiedade realística”, que ele define como racional e inteligível, gerada por uma reação à percepção de um perigo externo, isto é, de um dano que é esperado e previsto ou um reflexo de fuga como manifestação do instinto de autopreservação. Claramente, esta última não deve ser considerada uma patologia e sim um afeto ou uma emoção adaptativa necessária à nossa sobrevivência. E, por esta razão então, precisamos lembrar que quando falamos de ansiedade nem sempre estamos falando de uma patologia.

Para Freud, o ego é a “grande morada” da ansiedade e ele está, constantemente, em contato tanto com os estímulos externos (sob os quais temos pouco ou nenhum controle) quanto com os estímulos internos (nossos pensamentos, traumas, emoções). Quando o ego se depara com o perigo externo, recorre a tentativa de luta e fuga, porém quando se reprime diante de alguma emoção como o medo, por exemplo, isto equivale a uma tentativa de fuga, o que acaba causando os mesmos sintomas da ansiedade gerada por efeitos externos.

Resumindo, como resposta à alguma emoção já conhecida, o ego produz o que é chamada de “ansiedade como sinal”, uma reação à ameaça de ocorrência de uma situação traumática que já tenha acontecido anteriormente.

O que determina se este tipo de ansiedade será considerado patológica/neurótica ou não é a maneira como ela aparece. Este tipo de ansiedade não surge de uma maneira conveniente. Ela aparece de forma inadequada, como se um antigo sinal de perigo, que não existe mais, ainda estivesse presente.

Os aspectos hereditários da ansiedade

Nesse debate que traz a ansiedade para ser analisada sob as lentes da psique e da biologia, Charles Darwin defende que a força do hábito ou determinados padrões de comportamento assumidos por nossos ancestrais, tornaram-se hereditários, sendo então realizados e reproduzidos mesmo contra a vontade do indivíduo. E isso nada tem a ver com o neuroticismo da nossa psique.

Esta afirmação deixa clara sua crença na herança dos caracteres biológicos adquiridos e, também, que nossos padrões comportamentais estarão sempre em evolução e se modificando de acordo com as novas necessidades e os novos modos de vida.

Será então que com esta teoria de Darwin, sobre a capacidade adaptativa da ansiedade e de outras emoções humanas, ao longo da evolução da nossa espécie, podemos nos sentir mais otimistas, acreditando que a ansiedade neurótica tende a deixar de ser uma patologia ao longo da nossa evolução, já que não estamos mais expostos a tantos perigos? Ou estaremos fadados a seguir nossos padrões repetitivos impostos pelo neuroticismo da nossa psique? Enquanto não temos a resposta o melhor a fazer, certamente, é cuidar constantemente das nossas mentes.

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